Projeto Águas Urbanas
Águas Urbanas é um projeto que nasce entre a biologia e a memória, entre o desejo de compreender o mundo e a necessidade de habitá-lo com mais cuidado.
Sou filha de uma mulher da periferia, que vive em uma casa onde a água escorre pelas paredes, onde o esgoto da casa de cima expõe as entranhas da negligência urbana. Cresci entre goteiras e promessas de políticas públicas que nunca chegaram. Talvez por isso, meus olhos procurem a água — nos cantos rachados, nas nascentes esquecidas, nas fontes soterradas pela pressa da cidade.
O projeto começa com a fotografia, feita em caminhadas solitárias entre o trabalho e o cansaço, quando ainda me resta alguma luz do dia e a coragem de continuar. Registro a presença da água nas cidades — seus rastros, resistências e ausências. Mas também registro o que a água revela: as desigualdades, os silêncios, os modos de vida que brotam mesmo em solo árido.
Com o tempo, Águas Urbanas se expandiu também para o som.
Agora é também um podcast, onde reflito, investigo e escuto outras vozes sobre essas mesmas questões: o acesso à água, a justiça ambiental, as histórias invisíveis que correm por baixo do concreto.
A água, para mim, é mais que elemento — é linguagem, é testemunha.
Águas Urbanas é um ensaio contínuo sobre o cuidado, a injustiça e a beleza que insiste em sobreviver.
É também uma forma de não esquecer, de construir memória, de criar um futuro em que nossas águas possam enfim ser livres.
A foto acim é de uma nascente sem nome, mas com uma história antiga.
Brotando de um paredão rochoso, ela vive espremida entre um parque florestal urbano e a periferia — e há anos tem suas águas desviadas diretamente para o sistema de drenagem pluvial.
Água limpa, fresca, periférica — e desperdiçada.
Foi diante dela que nasceu o impulso de começar este projeto, feito de imagem e som.
Porque algumas águas esquecidas também são espelhos de quem somos e de tudo o que deixamos escorrer sem cuidado.
%2021.16.31_276c9d33.jpg)
Comentários
Postar um comentário